Os números de 2025 chamam atenção. Segundo o artigo “Money Laundering and Sanction Fines Fall 61% Amid US Deregulation”, divulgado pelo PYMNTS com base em dados do Financial Times, os reguladores norte-americanos arrecadaram cerca de US$ 1,7 bilhão em multas por violações de regras de lavagem de dinheiro, sanções e financiamento do terrorismo — uma queda de 61% em relação aos US$ 4,3 bilhões de 2024. Esse dado, isoladamente, já seria relevante. Mas ele ganha outra dimensão quando colocado ao lado do que aconteceu com o enforcement do FCPA ao longo do mesmo ano.

Vale ressaltar que enforcementé o termo usado para descrever a aplicação efetiva das leis, regras e regulamentos por autoridades competentes.

A linha do tempo apresentada pela Centraleyes mostra que 2025 foi marcado por uma pausa inicial no enforcement do FCPA, seguida pela publicação de novas diretrizes do Departamento de Justiça. Essas diretrizes reforçam incentivos à autodenúncia, cooperação e remediação rápida, ao mesmo tempo em que sinalizam menor apetite por investigações amplas e punitivas. O discurso oficial passou a enfatizar foco em riscos relevantes e proporcionalidade, reduzindo a pressão sobre falhas consideradas técnicas ou de menor impacto.

O FCPA Autumn Review 2025, da Miller & Chevalier, confirma essa leitura. O levantamento aponta menos ações de enforcement, valores de penalidades mais baixos e maior uso de resoluções negociadas. Também destaca que boa parte das cifras de anos anteriores foi inflada por casos excepcionais, o que ajuda a explicar a queda abrupta de 2025, mas não elimina a mudança de postura. Para você, o recado é claro: o enforcement não desapareceu, mas ficou mais seletivo, estratégico e menos barulhento.

Esse contexto ajuda a entender por que a queda nas multas por crimes financeiros ocorreu ao mesmo tempo em que outros países ampliaram suas penalidades, como França, Reino Unido, Suíça, Canadá e Emirados Árabes Unidos. Ainda assim, o volume global caiu 19%, para US$ 3,7 bilhões, puxado principalmente pelo recuo norte-americano. O centro de gravidade do enforcement global parece estar se redistribuindo.

Do ponto de vista de ética e integridade, esse cenário me preocupa e me provoca. Menos penalidades não significam menos riscos. Significam, muitas vezes, mais responsabilidade interna. Quando o Estado reduz a intensidade do controle, a tentação de tratar compliance como um custo ajustável aumenta. E é exatamente nesse ambiente que culturas frágeis se revelam.

Para você que lidera ou atua em compliance, 2025 deixa uma lição incômoda: integridade que depende apenas do medo da multa é circunstancial. O verdadeiro teste acontece quando a pressão regulatória diminui, mas as decisões continuam exigindo limites claros. Enforcement pode oscilar conforme agendas políticas e prioridades institucionais. Ética, se for genuína, não deveria oscilar junto.

No fim, o ano mostrou que menos sanções não significam um ambiente mais seguro. Significam um ambiente em que o papel das empresas na proteção da integridade do mercado se torna ainda mais decisivo e mais visível.

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Denise Debiasi é CEO da Bi2 Partners, reconhecida pela expertise e reputação de seus profissionais nas áreas de compliance e inteligência investigativa, finanças corporativas, consultoria regulatória (AML, BSA e LGPD), contabilidade forense, Due Diligence (financeiro, reputacional, investigativo e operacional), investigações corporativas, antilavagem de dinheiro, FCPA e anticorrupção, entre outros serviços de primeira importância em mercados emergentes.