Encontrei amigos para um café que virou debate. Um deles, que vive em Buenos Aires, contou sobre uma aula que assistiu na UBA. O tema foi o código de ética dos médicos e, entre tantos tópicos, um chamou nossa atenção: a confidencialidade da consulta. Segundo o que ele ouviu de professores e alunos, o médico não pode transportar informações de um paciente para outro, ainda que a intenção seja “proteger” alguém. O exemplo discutido foi direto: não é ético contar a um paciente que seu cônjuge, também paciente, tem uma DST.

A conversa mexeu comigo porque coloca você diante de um dilema real. De um lado, a confiança é fundamento do vínculo médico-paciente; sem ela, ninguém se abre, ninguém busca ajuda. De outro, existe a preocupação legítima com o bem-estar de terceiros. A pergunta que emergiu na mesa foi: até onde vai o dever de guardar segredo e quando começa o dever de prevenir danos?

Minha análise partiu de princípios que orientam decisões difíceis: autonomia, beneficência, não maleficência e justiça. Ao preservar o sigilo, o médico respeita a autonomia de quem revelou algo sensível. Ao mesmo tempo, precisa agir para reduzir riscos: orientar, educar, encaminhar para tratamento, estimular a comunicação responsável e o uso de proteção. O limite ético aparece quando a quebra do segredo vira atalho para “resolver” um conflito que deveria ser tratado no próprio consultório, com escuta ativa, pactos claros e apoio contínuo.

Essa reflexão não fica restrita à medicina. Você, líder ou profissional, lida com dados sensíveis o tempo todo: resultados, denúncias internas, avaliações, informações pessoais. A tentação de “avisar” um terceiro pode parecer nobre, mas pode corroer a confiança de todos. O que aprendo com o padrão médico é a disciplina do need-to-know, a priorização do consentimento e a criação de caminhos seguros para que a própria pessoa comunique o que precisa ser comunicado. Há ferramentas: planos de conversa, registros de orientação, presença de um terceiro mediador quando apropriado, e políticas que descrevem procedimentos para situações de risco sem abrir mão do sigilo.

Também falamos sobre como a confidencialidade não é omissão. É atuação responsável. Em cenários sensíveis, o papel do profissional é intensificar o cuidado: orientar com linguagem clara, reforçar os riscos, insistir no acompanhamento, indicar recursos de apoio e, quando previsto pelas normas, acionar mecanismos institucionais que preservem identidades e reduzam danos. O que não cabe é usar a informação de um para intervir diretamente na vida do outro.

Saí do encontro com a sensação de que essa é uma lição que você e eu podemos aplicar já: construir ambientes onde a confiança é retribuída com responsabilidade. Se o segredo é bem guardado, as pessoas buscam ajuda mais cedo, os riscos caem e as decisões ficam menos improvisadas. Ética, aqui, não é sobre escolher entre proteger alguém ou proteger o vínculo; é sobre proteger pessoas por meio do vínculo.

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Denise Debiasi é CEO da Bi2 Partners, reconhecida pela expertise e reputação de seus profissionais nas áreas de compliance e inteligência investigativa, finanças corporativas, consultoria regulatória (AML, BSA e LGPD), contabilidade forense, Due Diligence (financeiro, reputacional, investigativo e operacional), investigações corporativas, antilavagem de dinheiro, FCPA e anticorrupção, entre outros serviços de primeira importância em mercados emergentes.