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Em nome da transparência e do compliance, quem audita os auditores?

Compliance

Para garantir que as informações passadas pelas empresas ao mercado sejam verídicas e confiáveis, o mundo corporativo abraçou a figura da auditoria. O papel dos auditores mundo à fora é justamente analisar os dados das companhias clientes e emitir uma chancela de credibilidade. Se esses profissionais assinam embaixo dos balanços e das demonstrações financeiras das organizações, podemos ficar tranquilos. Aqueles dados estão corretos.

Entretanto, nos últimos anos, surgiu uma dúvida incômoda: quem audita os auditores? O questionamento se faz cada vez mais pertinente por causa da enxurrada de casos de empresas de auditoria, algumas de renome internacional e com décadas de atuação, que foram lenientes (para usarmos um eufemismo) com a situação caótica (outro eufemismo) dos balanços dos clientes.

Os casos são variados e intermináveis. No Brasil, tivemos no início do ano o ruidoso escândalo contábil das Lojas Americanas, devidamente aprovado pela PwC. Em novembro, a Magazine Luiza veio a público informar que seu último balanço financeiro, que tinha sido aprovado pela Ernest & Young, estava equivocado. E apresentou um novo, com prejuízo muito maior, para desespero dos acionistas.

Eu poderia ficar aqui listando uma série de outros exemplos de empresas de auditoria associadas com os escândalos contábeis e financeiros das companhias clientes. Isso tanto em nosso país quanto no exterior. O curioso é que a imprensa só divulga os casos envolvendo as grandes corporações. Contudo, os problemas de balanço estão presentes também no universo dos médios e pequenos negócios.

Diante desse cenário caótico, já começam a surgir vozes indicando a necessidade da presença dos auditores dos auditores. Só assim, alegam, será possível interromper a crise de confiança no mercado empresarial. Mas sempre surge a dúvida: se tivemos amanhã a auditoria da auditoria, quem sabe não precisemos da auditoria da auditoria da auditoria depois de amanhã?

Na minha visão, a solução para esse grave problema de transparência das informações passa pelo aperfeiçoamento da figura das empresas de auditoria e da área de Compliance (e não pelo incremento da cadeia de controle). Por exemplo, quais são as penalidades que os auditores precisam ter em caso comprovado de erro de avaliação nas finanças dos seus clientes? Acredito que a aplicação de multas pesadas e a responsabilização explícita das auditorias já irão surtir efeitos positivos no mercado. O que não pode é elas saírem imunes de falhas absurdas de seu trabalho, que prejudicaram milhares de investidores.

Portanto, vamos obrigar legalmente que as empresas de auditoria façam seus serviços de maneira correta. Quando elas forem punidas seriamente pelas falhas, quero ver repetirem de maneira sistemática os erros. Assim, não será preciso de auditoria da auditoria nem a auditoria da auditoria da auditoria para o mercado voltar à normalidade.


Denise Debiasi é CEO da Bi2 Partners, reconhecida pela expertise e reputação de seus profissionais nas áreas de investigações globais e inteligência estratégica, governança e finanças corporativas, conformidade com leis nacionais e internacionais de combate à corrupção, antissuborno e antilavagem de dinheiro, arbitragem e suporte a litígios, entre outros serviços de primeira importância em mercados emergentes.

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