Durante muito tempo, os programas de compliance foram vistos apenas como mecanismos internos de controle ou resposta a exigências regulatórias. Hoje, porém, a discussão ganhou outra dimensão. Na América Latina, especialmente após grandes escândalos de corrupção envolvendo governos e empresas, o compliance passou a ocupar um espaço estratégico dentro das políticas públicas anticorrupção.
O artigo sobre a ascensão dos programas de compliance mostra como reformas legais em diferentes países latino-americanos passaram a incentivar empresas a adotarem estruturas de integridade mais robustas. Em muitos casos, a existência de programas efetivos deixou de ser apenas recomendação reputacional e passou a influenciar investigações, acordos e responsabilizações jurídicas.
Esse movimento traz uma reflexão importante. Quando o Estado utiliza o compliance como ferramenta de prevenção à corrupção, ele também transfere parte da responsabilidade ética para as organizações privadas. E isso cria uma mudança profunda de cultura corporativa.
Na prática, não basta mais possuir um código de ética disponível na intranet ou promover treinamentos pontuais. O mercado passou a exigir evidências concretas de funcionamento: canais de denúncia independentes, investigações adequadas, gestão de terceiros, avaliação de riscos e participação ativa da liderança.
Ao mesmo tempo, existe um desafio relevante. Muitas empresas ainda implementam programas de integridade pensando apenas em proteção jurídica ou em participação em licitações. O problema é que compliance de fachada normalmente é percebido rapidamente — seja pelos colaboradores, seja pelo mercado, seja pelos órgãos reguladores.
Outro ponto interessante trazido pelo debate latino-americano é que a difusão dessas reformas não ocorre de maneira uniforme. Países possuem níveis diferentes de maturidade institucional, fiscalização e cultura regulatória. Ainda assim, existe uma percepção comum: corrupção deixou de ser vista apenas como problema criminal e passou a ser tratada também como fator de risco econômico, reputacional e concorrencial.
Na minha visão, esse talvez seja um dos maiores avanços dos últimos anos. Quando integridade passa a influenciar acesso a investimentos, relações comerciais e valor de mercado, o compliance deixa de ocupar uma posição periférica dentro das organizações.
Você provavelmente já percebeu isso no cotidiano corporativo. Hoje, investidores, clientes e parceiros querem entender como as empresas se comportam, quais mecanismos possuem para prevenir desvios e qual é a coerência entre discurso e prática.
O fortalecimento dos programas de compliance na América Latina mostra que integridade não é mais apenas um tema jurídico. Ela se tornou um elemento estratégico de governança, confiança e sustentabilidade empresarial. E, cada vez mais, organizações que tratam ética apenas como formalidade tendem a perder espaço em um ambiente de negócios mais transparente e mais exigente.
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Denise Debiasi é CEO da Bi2 Partners, reconhecida pela expertise e reputação de seus profissionais nas áreas de compliance e inteligência investigativa, finanças corporativas, consultoria regulatória (AML, BSA e LGPD), contabilidade forense, Due Diligence (financeiro, reputacional, investigativo e operacional), investigações corporativas, antilavagem de dinheiro, FCPA e anticorrupção, entre outros serviços de primeira importância em mercados emergentes.