A notícia da abertura de um processo administrativo pela ANPD contra a Claro por suposto compartilhamento irregular de dados de clientes com a Serasa chama atenção não apenas pelos valores envolvidos ou pela possibilidade de sanções. O caso nos convida a refletir sobre um tema cada vez mais presente nas organizações: a diferença entre o que é tecnicamente possível fazer com dados e o que é eticamente adequado fazer com eles.
Segundo a apuração divulgada pela imprensa, mais de cem variáveis relacionadas a cada cliente teriam sido compartilhadas de forma contínua para subsidiar análises de crédito e estudos de mercado. Além disso, a ANPD aponta possíveis falhas de transparência, já que os titulares dos dados não teriam sido informados de maneira clara sobre o destino de suas informações. Embora o contrato tenha sido encerrado e a empresa apresente sua defesa, o episódio já produz um efeito relevante: reacende o debate sobre confiança.
Muitas organizações ainda enxergam a proteção de dados como um tema exclusivamente jurídico ou regulatório. É um equívoco. A LGPD estabelece obrigações legais, mas a discussão vai além da conformidade. Ela alcança valores como respeito, transparência e responsabilidade no relacionamento com clientes, colaboradores e parceiros.
Quando uma empresa coleta dados, ela recebe muito mais do que informações. Recebe um voto de confiança. O cliente acredita que seus dados serão utilizados para as finalidades que compreende e espera que qualquer uso adicional seja comunicado de forma clara e acessível. Quando essa expectativa é rompida, mesmo que não exista intenção de causar dano, a credibilidade da organização pode ser afetada.
O caso também evidencia um risco comum em ambientes corporativos: a lógica de que, se os dados estão disponíveis, devem ser aproveitados ao máximo. Sob a ótica da ética, a pergunta deveria ser outra: realmente precisamos de todas essas informações para atingir o objetivo pretendido? O princípio da necessidade, previsto na LGPD, também pode ser entendido como um princípio de bom senso empresarial.
Vejo com frequência empresas investindo em tecnologia, inteligência artificial e análise de dados para ampliar sua capacidade de conhecer clientes e antecipar comportamentos. Trata-se de uma evolução positiva. Porém, quanto maior o poder de tratamento de informações, maior deve ser a responsabilidade sobre seu uso.
Você já reparou que as organizações mais admiradas do mercado costumam ser aquelas que explicam de forma simples o que fazem com os dados que recebem? A transparência não é apenas uma obrigação legal. É um elemento de construção de reputação.
Independentemente do desfecho do processo envolvendo Claro e Serasa, a principal lição para o mundo corporativo é clara: a gestão ética dos dados não começa quando o regulador bate à porta. Ela começa quando a empresa decide colocar a confiança das pessoas no centro de suas decisões. Afinal, em uma economia movida por informação, a reputação continua sendo um dos ativos mais valiosos de qualquer organização.
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Denise Debiasi é CEO da Bi2 Partners, reconhecida pela expertise e reputação de seus profissionais nas áreas de compliance e inteligência investigativa, finanças corporativas, consultoria regulatória (AML, BSA e LGPD), contabilidade forense, Due Diligence (financeiro, reputacional, investigativo e operacional), investigações corporativas, antilavagem de dinheiro, FCPA e anticorrupção, entre outros serviços de primeira importância em mercados emergentes.