O caso do Banco Master é um daqueles episódios que nos obrigam a sair do conforto do discurso e encarar a realidade do compliance como ele é — ou como ele deixa de ser. Não falo apenas de uma instituição específica, mas de um alerta claro para todo o mercado financeiro e para você que confia, decide ou opera em ambientes regulados.

As investigações e a posterior liquidação extrajudicial do banco revelaram indícios de operações sem lastro, fragilidades severas de controles internos e uma governança incapaz de interromper práticas que cresceram até se tornarem insustentáveis. Quando a Polícia Federal batiza uma investigação de “Compliance Zero”, a mensagem é dura, mas pedagógica: algo fundamental deixou de existir ou nunca funcionou de fato.

O que mais me preocupa nesse tipo de caso é que ele raramente começa com grandes fraudes. Em geral, nasce de pequenas concessões, de controles que viram formalidade, de áreas de integridade que não têm autonomia ou voz. Para você, isso importa porque o risco não está apenas no ato ilícito final, mas no caminho silencioso que leva até ele.

O Banco Central precisou intervir para proteger o sistema financeiro como um todo. Esse ponto é central. Falhas de ética e integridade não ficam confinadas dentro dos muros de uma organização. Elas contaminam contrapartes, investidores, clientes e a própria confiança no mercado. Quando um banco quebra por problemas de governança, todos os demais passam a ser olhados com mais desconfiança.

Há também uma dimensão cultural que não pode ser ignorada. Nenhuma estrutura de compliance funciona se a alta administração não estiver genuinamente comprometida com limites éticos. Não basta ter políticas, códigos ou relatórios. Se o topo da organização tolera atalhos, o resto da empresa aprende rapidamente que integridade é negociável.

Esse caso também provoca uma reflexão incômoda sobre responsabilidade. Onde estavam os mecanismos de controle? Onde estavam as linhas de defesa? E, principalmente, por que sinais de alerta não geraram correções antes que o problema atingisse proporções sistêmicas? Essas são perguntas que você deveria se fazer sobre a sua própria organização, antes que reguladores, investidores ou a opinião pública façam por você.

Para mim, a maior lição do caso Banco Master é simples e desconfortável: compliance que não incomoda não protege. Integridade exige enfrentamento, questionamento e, muitas vezes, decisões impopulares. Quando isso não acontece, o preço vem — e ele costuma ser alto.

Em um mercado cada vez mais exposto, regulado e conectado, ética e integridade deixaram de ser atributos desejáveis. Elas são condição de permanência. O que o caso nos mostra é que ignorar isso não é uma opção segura para ninguém.

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Denise Debiasi é CEO da Bi2 Partners, reconhecida pela expertise e reputação de seus profissionais nas áreas de compliance e inteligência investigativa, finanças corporativas, consultoria regulatória (AML, BSA e LGPD), contabilidade forense, Due Diligence (financeiro, reputacional, investigativo e operacional), investigações corporativas, antilavagem de dinheiro, FCPA e anticorrupção, entre outros serviços de primeira importância em mercados emergentes.