Os contornos do compliance em 2025 ficam claros quando analisamos três leituras de referência publicadas ao longo do ano: o artigo “The News That Affected Corporate Boards Most in 2025”, da OnBoard Meetings; o estudo “2025 Wrapped: What Shaped Compliance This Year”, da GAN Integrity; e o levantamento “Top GRC Stories of 2025”, do Corporate Compliance Insights. Juntos, esses materiais ajudam a entender como riscos, governança e expectativas sobre ética e integridade evoluíram — e pressionaram empresas e conselhos a repensarem seu papel.

Um dos eixos centrais de 2025 foi a ampliação da agenda de risco nos conselhos de administração. Temas como cibersegurança, inteligência artificial, sanções internacionais e crises geopolíticas deixaram de ser episódicos e passaram a integrar discussões recorrentes de governança. Conselhos foram cobrados não apenas por reagir a crises, mas por demonstrar preparo, supervisão contínua e capacidade de antecipação. Para você, isso significa que compliance passou a dialogar muito mais diretamente com o board, traduzindo riscos complexos em decisões estratégicas.

inteligência artificial aparece como um divisor de águas. Se, por um lado, ela foi incorporada de forma acelerada aos programas de compliance — especialmente em due diligence, monitoramento e investigações —, por outro, gerou novos riscos éticos e regulatórios. 2025 deixou claro que não basta usar IA; é preciso governá-la. As organizações mais maduras foram aquelas que criaram políticas claras, supervisão humana e critérios éticos para o uso dessas ferramentas, entendendo que eficiência sem integridade pode se transformar rapidamente em passivo reputacional.

Outro ponto recorrente nos três materiais é a complexidade regulatória global. O ano foi marcado por sinais ambíguos: em algumas jurisdições, houve enfraquecimento ou revisão de agendas regulatórias ligadas a ESG, diversidade e transparência; em outras, especialmente fora dos EUA, exigências aumentaram. O resultado prático para as empresas foi um ambiente fragmentado, no qual cumprir a lei deixou de ser um exercício linear. Para você, isso exigiu programas de compliance mais flexíveis, capazes de lidar com múltiplos regimes regulatórios sem perder coerência interna.

gestão de terceiros também ganhou protagonismo. Cadeias de suprimentos mais longas, instabilidade política e econômica e o avanço do crime organizado sobre atividades lícitas elevaram o risco indireto. Em 2025, ficou evidente que due diligence pontual já não é suficiente. Monitoramento contínuo, reavaliações periódicas e integração de dados passaram a ser vistos como requisitos mínimos para proteger a empresa de riscos que não se originam internamente, mas que recaem sobre ela com igual intensidade.

Chama atenção, ainda, o reforço da ideia de compliance como gerador de valor, e não apenas como custo ou obrigação. Os artigos mostram que organizações com programas mais maduros conseguiram responder melhor a crises, preservar reputação e manter a confiança de investidores e parceiros. Isso desloca o discurso: compliance não é só evitar multas, mas sustentar a estratégia em ambientes de incerteza.

Por fim, 2025 deixou uma lição clara. O compliance do futuro não será definido apenas por regras ou tecnologia, mas pela capacidade de integrar ética, governança e tomada de decisão. Para você, que atua nesse campo, o desafio é equilibrar pressão por resultados, inovação e integridade real. O ano mostrou que quem tratou o compliance como algo periférico ficou mais vulnerável. Quem o colocou no centro da estratégia saiu mais preparado para o que vem pela frente.

Um dos principais vetores dessa mudança foi a ascensão da governança de IA. A tecnologia deixou de ser tema meramente técnico e passou a integrar decisões estratégicas e de risco no topo das prioridades corporativas. Compliance e diretoria foram forçados a equilibrar a exploração de oportunidades trazidas pela IA com a mitigação de riscos como vieses em algoritmos, falta de transparência e implicações legais. Nesse contexto, políticas de supervisão claras, validação humana e desenho ético foram pilares para programas maduros de IA.

O ritmo acelerado das operações também impactou profundamente a gestão de riscos de terceiros. Métodos tradicionais de due diligence, baseados em revisões periódicas, mostraram-se insuficientes diante de fatores geopolíticos, sanções emergentes e crises de reputação que surgem de um dia para o outro. Programas modernos passaram a incorporar monitoramento contínuo e dados em tempo real para manter uma visão atualizada e abrangente dos riscos associados a parceiros e fornecedores.

Além disso, 2025 trouxe incerteza regulatória significativa em algumas jurisdições, como nos EUA, onde a Comissão de Valores Mobiliários (SEC) revisou e suspendeu propostas de regras de divulgação sobre capital humano, ESG e diversidade de conselhos. Isso não reduziu o ônus de compliance; ao contrário, forçou empresas a navegar em um mosaico de requisitos estaduais e internacionais, como as leis climáticas da Califórnia e a Diretiva de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa da UE.

Outro destaque foi a crescente complexidade do cenário global de risco. Tensões geopolíticas e tarifas comerciais moldaram decisões estratégicas e ampliaram a necessidade de compliance atuar como mecanismo de resiliência corporativa. Simultaneamente, a supervisão de cibersegurança continuou a ganhar espaço nas agendas de conselho, com um número crescente de empresas alinhando suas práticas a estruturas reconhecidas internacionalmente.

Por fim, compliance reforçou sua posição como função estratégica de negócios e não apenas um mecanismo de controle. Líderes perceberam que programas de integridade bem articulados contribuem para a confiança dos stakeholders, reduzem riscos operacionais e influenciam positivamente o desempenho organizacional, exigindo métricas claras de eficácia e integração com metas corporativas.

Em resumo, 2025 consolidou tendências que já vinham emergindo: o papel central da tecnologia – em especial da IA – na governança, a necessidade de resposta em tempo real aos riscos, a adaptação a um ambiente regulatório fluido e o reconhecimento de compliance como elemento essencial para a sustentabilidade e reputação corporativa. Preparar-se para 2026 significa aprofundar governança de IA, fortalecer a inteligência de riscos e reforçar a cultura de integridade como parte integrante da estratégia de negócios.

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Denise Debiasi é CEO da Bi2 Partners, reconhecida pela expertise e reputação de seus profissionais nas áreas de compliance e inteligência investigativa, finanças corporativas, consultoria regulatória (AML, BSA e LGPD), contabilidade forense, Due Diligence (financeiro, reputacional, investigativo e operacional), investigações corporativas, antilavagem de dinheiro, FCPA e anticorrupção, entre outros serviços de primeira importância em mercados emergentes.